A Revista Sillogés* - http://historiasocialecomparada.org/revistas/index.php/silloges/ - anuncia a chamada de trabalhos para o dossiê História Pública e acervos digitais organizado pelas Profa. Dra. Daiane Silveira Rossi (Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz) e Profª Dra Karlla Kamylla Passos (Departamento de Museologia/Universidade Federal de Ouro Preto)
Prazo para o envio: 30 de outubro de 2026
Contamos com sua colaboração através de artigos ou resenha relacionados a essa importante temática de nossa historiografia. Lembramos que a Sillogés recebe também artigos e resenhas de diferentes temas em fluxo contínuo.
Abaixo, mais detalhes sobre a proposta de dossiê.
História Pública e acervos digitais
A expansão dos acervos digitais nas últimas décadas produziu transformações nas condições de acesso, preservação e circulação da memória histórica, patrimônio digital, e referências culturais. Roy Rosenzweig[1] foi um dos primeiros a nomear o paradoxo desse processo: a abundância de registros digitais não equivale à democratização da memória, pois impõe novos desafios de seleção, curadoria no sentido de produção de significado, musealização no contexto digital e interpretação, que permanecem invisíveis ao olhar não especializado. O excesso, nesse sentido, é também uma forma de silêncio. O que abre questões como: Quem define o que será descrito? O que permanece invisível nos bancos de dados? Como algoritmos reproduzem silenciamentos? Que memórias coletivas permanecem fora dos sistemas digitais?
É nesse horizonte que a História Pública se coloca como campo de interrogação. Como argumenta Serge Noiret [2], a História Pública implica repensar quem participa, produz, acessa e se reconhece nas narrativas históricas, e o ambiente digital reconfigura essas perguntas sem respondê-las. Pensar historicamente o digital exige diálogo com campos e práticas que tensionam os modos tradicionais de produção e mediação do conhecimento histórico: a museologia social, os estudos de memória, a educação patrimonial, a educação museal online e as humanidades digitais oferecem, cada qual a seu modo, ferramentas conceituais para enfrentar os desafios que os acervos digitais impõem à prática historiográfica.
O avanço das ferramentas de inteligência artificial aprofunda esse quadro. Se ampliam as possibilidades de pesquisa, organização e difusão de acervos, também recolocam questões sobre agência, ética, autoria e responsabilidade na construção das narrativas sobre o passado. No campo museológico e arquivístico, a IA incide diretamente sobre processos de documentação, catalogação, indexação, curadoria e mediação, influenciando os critérios de classificação, visibilidade e interpretação dos acervos. Toda escolha algorítmica é uma escolha política, e ignorar essa dimensão é reproduzir, sob nova linguagem técnica, velhas hierarquias de memória. Assim cabe questionar: algoritmos assumem funções curatoriais? Quem controla os critérios de visibilidade dos acervos digitais?
Este dossiê pretende reunir pesquisas que interroguem as interfaces, em sua totalidade ou parcialmente, entre história pública, acervos digitais e inteligência artificial. São bem-vindos trabalhos teóricos, metodológicos e empíricos que problematizem essas relações a partir de diferentes perspectivas disciplinares que apresentem experiências de pesquisa e mediação em contextos digitais, e que contribuam para pensar os usos sociais do passado em tempos de abundância e aceleração tecnológica.
[1] ROSENZWEIG, Roy. Clio conectada: O futuro do passado na era digital. tradução: Gil Reyes. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2021. (Coleção História & Historiografia).
