28 de junho de 2026

Chamada para artigos: História Pública e acervos digitais - 2.º Semestre 2026

 A Revista Sillogés* - http://historiasocialecomparada.org/revistas/index.php/silloges/ - anuncia a chamada de trabalhos para o dossiê História Pública e acervos digitais organizado pelas Profa. Dra. Daiane Silveira Rossi (Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz) e Profª Dra Karlla Kamylla Passos (Departamento de Museologia/Universidade Federal de Ouro Preto)

Prazo para o envio: 30 de outubro de 2026

Contamos com sua colaboração através de artigos ou resenha relacionados a essa importante temática de nossa historiografia. Lembramos que a Sillogés recebe também artigos e resenhas de diferentes temas em fluxo contínuo.

Abaixo, mais detalhes sobre a proposta de dossiê. 

História Pública e acervos digitais 

A expansão dos acervos digitais nas últimas décadas produziu transformações nas condições de acesso, preservação e circulação da memória histórica, patrimônio digital, e referências culturais. Roy Rosenzweig[1]  foi um dos primeiros a nomear o paradoxo desse processo: a abundância de registros digitais não equivale à democratização da memória, pois impõe novos desafios de seleção, curadoria no sentido de produção de significado, musealização no contexto digital e interpretação, que permanecem invisíveis ao olhar não especializado. O excesso, nesse sentido, é também uma forma de silêncio. O que abre questões como: Quem define o que será descrito? O que permanece invisível nos bancos de dados? Como algoritmos reproduzem silenciamentos? Que memórias coletivas permanecem fora dos sistemas digitais?

É nesse horizonte que a História Pública se coloca como campo de interrogação. Como argumenta Serge Noiret [2], a História Pública implica repensar quem participa, produz, acessa e se reconhece nas narrativas históricas, e o ambiente digital reconfigura essas perguntas sem respondê-las. Pensar historicamente o digital exige diálogo com campos e práticas que tensionam os modos tradicionais de produção e mediação do conhecimento histórico: a museologia social, os estudos de memória, a educação patrimonial, a educação museal online e as humanidades digitais oferecem, cada qual a seu modo, ferramentas conceituais para enfrentar os desafios que os acervos digitais impõem à prática historiográfica.

Fonte: Imagem gerada com auxílio de inteligência artificial por meio de ChatGPT (OpenAI), utilizando ferramenta integrada de geração de imagens, a partir de prompt elaborado com base no texto da chamada do dossiê, com ajustes iterativos e intervenção das autoras na definição estética final.

O avanço das ferramentas de inteligência artificial aprofunda esse quadro. Se ampliam as possibilidades de pesquisa, organização e difusão de acervos, também recolocam questões sobre agência, ética, autoria e responsabilidade na construção das narrativas sobre o passado. No campo museológico e arquivístico, a IA incide diretamente sobre processos de documentação, catalogação, indexação, curadoria e mediação, influenciando os critérios de classificação, visibilidade e interpretação dos acervos. Toda escolha algorítmica é uma escolha política, e ignorar essa dimensão é reproduzir, sob nova linguagem técnica, velhas hierarquias de memória. Assim cabe questionar: algoritmos assumem funções curatoriais? Quem controla os critérios de visibilidade dos acervos digitais?

Este dossiê pretende reunir pesquisas que interroguem as interfaces, em sua totalidade ou parcialmente, entre história pública, acervos digitais e inteligência artificial. São bem-vindos trabalhos teóricos, metodológicos e empíricos que problematizem essas relações a partir de diferentes perspectivas disciplinares que apresentem experiências de pesquisa e mediação em contextos digitais, e que contribuam para pensar os usos sociais do passado em tempos de abundância e aceleração tecnológica.

[1] ROSENZWEIG, Roy. Clio conectada: O futuro do passado na era digital. tradução: Gil Reyes. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2021. (Coleção História & Historiografia).

[2] NOIRET, Serge. História Pública Digital│ Digital Public History. Liinc em Revista, v. 11, n. 1, 2015. Disponível em: http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3634. Acesso em: 4 jun. 2026.


* Esta é a última chamada a ser publicada no Blog do GT Acervos, História, Memória e Patrimônio. A revista Sillogés passará a integrar o portal de periódicos do IFRS, tornando-se independente do GT Acervos, com a mesma equipe editorial.

28 de fevereiro de 2026

Chamada para artigos: Educação, acervos e Patrimônio Histórico Educativo - 1.º Semestre 2026

 

 A Revista Sillogés - http://historiasocialecomparada.org/revistas/index.php/silloges/ - anuncia a chamada de trabalhos para o dossiê Educação, acervos e Patrimônio Histórico Educativo organizado pelos Prof. Dr. José Edimar de Souza (UCS),Profa. Dra. Rosa Fátima de Souza Chaloba (UNESP) e Prof. Dr. Gabriel Scagliola  (Museo Pedagógico José Pedro Varela e Institutos Normales de Montevideo)

Prazo para o envio: 30 de junho de 2026 15 de julho de 2026

Contamos com sua colaboração através de artigos ou resenha relacionados a essa importante temática de nossa historiografia. Lembramos que a Sillogés recebe também artigos e resenhas de diferentes temas em fluxo contínuo.

Abaixo, mais detalhes sobre a proposta de dossiê. 


Educação, acervos e Patrimônio Histórico Educativo 

O conceito de Patrimônio Histórico Educativo tem posto em relevo a importância de se preservar a diversidade de bens materiais e imateriais relacionados à educação (documentos, objetos, materiais escolares, práticas educativas, memórias docentes, etc.). O reconhecimento do patrimônio educativo como patrimônio cultural da sociedade é fundamental, pois, a educação escolar ou não escolar ocupa um lugar de fundamental importância nas sociedades contemporâneas.

Entendemos que é pela educação, no conjunto de seus processos educativos, que novas e distintas óticas sejam possíveis de se concretizar por meio da sensibilização, manutenção, preservação e resistência frente as tensões postas pelo impacto das inovações tecnológicas. As transformações da experiência social produzem impacto também no modo como compreendemos a memória cultural de um lugar, de uma instituição, das representações e práticas, como enfatiza Juri Meda (2014, p. 509)[1], “la memoria [...] tiene que tener en cuenta tambíen los fenómenos de transformación de las memorias individuales a lo largo de la historia, como reflejo de los cambios generacionales. Considerando la memoria de la escuela como parte integral de la memória cultural de una comunidade.”. Para González (2009), as relações entre educação, os acervos  e o patrimônio contribuem para formação cidadã e democrática dos sujeitos, bem como espaço de aprendizagem, experimentação e criação de atitudes de apropriação cultural.

González (2009, p. 25)[2] afirma que participar ativamente da “[...] recuperación, difusión y/o activación de bienes culturales que forman parte de un pasado compartido abre la posibilidad de desarrollar sentimentos de pertenencia y de actitudes de responsabilidade ciudadana y de compromisso con la propia historicidad.”. É  nessa perspectiva que entendemos que o Patrimônio Cultural compreende ações sócio históricas que perpassa as mobilizações educativas e sociais comprometidas com o reconhecimento, a valorização e preservação das memórias e das histórias de diferentes grupos e comunidades.


Nosso propósito com este dossiê é contribuir para aprofundar o debate referente as interlocuções entre Educação, os diferentes tipos de Acervos de preservação de memória e o Patrimônio Histórico Educativo. Concordamos com o argumento de Augustín Escolano Benito, em entrevista concedida a Souza (2018)[3], de que investigar a materialidade produzida historicamente nas instituições envolve “[...] restos materiales de la historia escolar que muestran o encriptan significados [...] y nuestras memórias se ven activadas al entrar en contacto con estos testimonios.” Nesse sentido, acolhemos resultados de pesquisas que problematizam a questão do patrimônio educativo, além de perspectivas teóricas e metodológicas no procedimento de pesquisas sobre o patrimônio cultural e histórico educativo, das novas perspectivas sobre a cultura escolar e suas materialidades; bem como estudos que tenham como objeto de investigação formas de conservação e preservação de artefatos e objetos do cotidiano educacional; usos e práticas de acervos ou arquivos.




[1] Meda, Juri. La escuela del pasado y su conmemoración em los museos de la escuela italianos: tendencias y perspectivas. In:  Rubio, Ana Maria Badanelli; Sanz, María Poveda; Guerrero, Carmen Rodríguez. (Coords.).  Pedagogía museística: práticas, usos didácticos e investigación del patrimônio educativo. Actas de Las VI Jornadas Científicas de La Sociedad Española para el estudio del Patrimonio Histórico Educativo. Madrid, 2014. p. 509-521.

[2] ´González, Alba Susana. Patrimonio, Escuela y Comunidad. Buenos Aires. Lugar Editorial, 2009.

[3] Souza, José Edimar de. La escuela como cultura y sus prácticas educativas: entrevista con Augustín Escolano Benito. CONJECTURA: Filosofia E Educação23(1), 2018, p.199–207. Recuperado de https://sou.ucs.br/etc/revistas/index.php/conjectura/article/view/5723

22 de julho de 2025

Chamada para artigos - Dossiê "História Social da Imigração: acervos, memória e perspectivas historiográficas" - Segundo semestre 2025

 A Revista Sillogés - http://historiasocialecomparada.org/revistas/index.php/silloges/ - anuncia a chamada de trabalhos para o dossiê História Social da Imigração: acervos, memória e perspectivas historiográficas proposto pela Profa. Dra. Maíra Ines Vendrame (Unisinos) e Profa. Dra. Júlia Leite Gregory (Pós-Doutoranda, UNICENTRO).


O prazo para envio de artigos para o dossiê é 01.12.2025 

Contamos com sua colaboração através de artigos ou resenha relacionados a essa importante temática de nossa historiografia. Lembramos que a Sillogés recebe também artigos e resenhas de diferentes temas em fluxo contínuo.

Abaixo, mais detalhes sobre a proposta de dossiê. 


Os movimentos migratórios têm marcado profundamente a história de diversas regiões do território brasileiro. No século XIX e início do XX, o Brasil buscou atrair imigrantes, sobretudo europeus, com vistas a incentivar o povoamento, aproveitar “terras devolutas”, proteger fronteiras, ampliar mercados consumidores e a produção de alimentos, aumentar a oferta de mão de obra, além de buscar o branqueamento populacional e a modernização da economia nacional. As políticas migratórias incluíam a criação de colônias, a demarcação de lotes de terra, propaganda na Europa, subsídios ao transporte e apoio aos recém-chegados. Diversos estados receberam projetos de colonização, destacando-se aí a região Sul, onde alemães, italianos, poloneses, ucranianos, franceses e russos formaram comunidades marcadas por uma interação entre tradição e adaptação: surgiram vilas, centros urbanos e redes comerciais que testemunharam a transformação de modos de viver, pensar, trabalhar e se relacionar com o território.

A partir do início do século XXI, o Brasil passou a receber novos fluxos migratórios. Mesmo sendo os imigrantes agora haitianos, venezuelanos e senegaleses, olhar para as migrações do presente e do passado em perspectiva comparada ajuda a compreender diferentes questões implicadas na vida das pessoas que migram, em suas estratégias de integração social, moradia, trabalho, direitos e família na sociedade de acolhida.

Deste modo, no contexto das comemorações que marcam os 200 anos da imigração alemã e os 150 anos da imigração italiana no Brasil (2024-2025), o presente dossiê propõe reunir artigos que abordem, de forma crítica e inovadora, temas relacionados à história social das migrações históricas e contemporâneas no país, com especial atenção aos acervos, memórias e perspectivas historiográficas.

Em função das efemérides, multiplicam-se eventos comemorativos, publicações e debates sobre os sentidos históricos e sociais da imigração no país, além de ser estimulado o interesse por memórias, práticas culturais, disputas de narrativa e usos políticos do passado. Serão bem-vindas contribuições que utilizem fontes diversas — escritas e não escritas — como documentos judiciais, religiosos, administrativos, civis, cartas, diários, fotografias, objetos, monumentos e narrativas orais. Interessa-nos, sobretudo, discutir a pluralidade das experiências migratórias, da relação entre diferentes problemáticas ligada a inserção social, como as pesquisas sobre imigração e trabalho, gênero, parentesco, cidadania e constituição de direitos, processos de racialização, disputas e divisões, utilizando metodologias de análise que propiciem avanços e desafios ao campo de estudos da história das imigrações. 



Referências imagens: Família Italiana  - Museu do Imigrante Italiano Eduardo Marcuzzo (s.d)/ Família haitiana já está reunida em Campinas - Correio Popular (2018).

7 de janeiro de 2025

Chamada para artigos - Dossiê "Imagens em Risco: Acervos e Memórias em Tempos Difíceis" - Primeiro semestre 2025


A Revista Sillogés - http://historiasocialecomparada.org/revistas/index.php/silloges/ - anuncia a chamada de trabalhos para o dossiê Imagens em Risco: Acervos e Memórias em Tempos Difíceis proposto pelo Profa. Dra. Andrea Bachettini (UFPel), Profa. Dda. Dóris Couto (SEM/RS) e Profa. Dra. Luciana de Oliveira (GT Acervos/ANPUH-RS).

O prazo para envio de artigos para o dossiê é 31.05.2025 30.06.2025

Contamos com sua colaboração através de artigos ou resenha relacionados a essa importante temática de nossa historiografia. Lembramos que a Sillogés recebe também artigos e resenhas de diferentes temas em fluxo contínuo.

Abaixo, mais detalhes sobre a proposta de dossiê. 

 

Chamada de trabalhos: Imagens em Risco: Acervos e Memórias em Tempos Difíceis

No dia 08 de janeiro de 2023, em um dos maiores atentados contra a democracia brasileira, grupos terroristas invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília, na tentativa de consolidar um golpe contra o novo governo federal e suas estruturas. Nesse mesmo dia 08, conforme noticiado e veiculado pela mídia, diversos objetos de valor histórico e artístico foram vandalizados e parcialmente destruídos.

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul foi assolado por uma das mais terríveis enchentes de sua história. As perdas foram – e ainda estão sendo - imensuráveis. Ruas, casas, espaços de memória ficaram totalmente submersos em águas que não eram apenas das chuvas e rios. Vidas foram perdidas. E muitos acervos e histórias também.

Os atentados de 2023 e a catástrofe climática que destruiu parcialmente o Estado do RS em 2024 são dois eventos distantes no tempo e nas causas. Se aproximam, porém, quando se observa de perto o que foi, dentre muitas coisas, afetado: o patrimônio histórico, artístico e cultural. Nesse sentido, o dossiê Imagens em risco: acervos em tempos difíceis visa congregar textos que discutam o papel das imagens, bem como a sua destruição, em contextos amplos de crise e negacionismo. Visa, igualmente, problematizar as novas imagens produzidas nesses momentos, seja pelo viés fotojornalístico seja pelas lentes amadoras, e considerar como elas dialogam e se relacionam com as narrativas construídas sobre tais fatos.

Por outro lado, análises centradas na recuperação tanto dos acervos visuais quanto das imagens são de grande interesse ao dossiê que ora se propõe. O trabalho de conservação e restauração tem sido de fundamental importância nesses contextos, uma vez que, a partir dele, muitos objetos que se entendiam perdidos, ganharam sobrevida. Nesse aspecto, também são válidas as reflexões sobre o cotidiano de ações de profissionais de diferentes áreas que, com suas expertises, foram incansáveis da recuperação de acervos e imagens.

No contexto dos tempos difíceis, onde a destruição acidental ou proposital da história e da memória se tornam recorrentes, é de grande importância refletir sobre os demais acervos que se perdem – e muitas vezes são salvos – em desastres climáticos ou por questões de ordem política e ideológica. Assim, é de interesse do presente dossiê, também, a publicação de análises e relatos sobre salvamento, resgate, recuperação ou perda de acervos documentais, tridimensionais e bibliográficos. Mesmo que não esteja centrado no tema das imagens, a sobrevivência destes, em sua integridade e originalidade, muitas vezes estão nelas registradas.

Para que se possa refletir amplamente sobre a relevância do tema proposto, serão muito bem recebidos textos que apresentem todas essas questões em diferentes tempos e contextos. Da mesma forma, relatos de experiência e/ou problematizações dos objetos visuais serão de grande valia e importância ao dossiê.

As imagens portam memórias. Transitam e dialogam no tempo. São suportes que, como discute Didi-Huberman, nós vemos e, ao mesmo tempo, nos olha. Nos faz refletir sobre nosso tempo e os tempos de sua produção. Quando se vivenciam momentos em contextos difíceis, de crise e abalos, sejam eles de ordem política, cultural ou ambiental, as imagens ressurgem, como elementos fantasmáticos, para assombrar e relembrar sua própria especificidade. E as especificidades do tempo em que se vive. É quando se olha e se reconfigura o passado e o presente. A imagem, destruída, evoca o tempo presente em suas cicatrizes.  Seus acervos, resgatados, emergem como marcos de um tempo em seu devir.


Créditos das imagens: Acima à esq. Incêndio Museu Nacional (2018), Acima à dir. Inundação do Museu Visconde de São Leopoldo provocada pela catástrofe climática de maio de 2024. Abaixo à esq. Parceria entre IPHAN e UFPel para recuperação das obras artísticas danificadas nos episódios de vandalismo de 08 de janeiro de 2023. Abaixo à dir. Tratamento acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) atingido pela catástrofe climática de maio de 2024. Arte sobre imagens.

 

 


16 de junho de 2024

Alagamento da Câmara de Porto Alegre destruiu arquivos históricos

 

Alagamento da Câmara de Porto Alegre destruiu arquivos históricos

Primeiro piso do prédio foi totalmente atingido pelas enchentes de maio e as atividades só deverão voltar à normalidade após o recesso, em previsão otimista

Rafael Renkovski




Arquivos históricos do Legislativo estão armazenados e aguardam ações para serem recuperados 

Palco de importantes decisões da política municipal, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre é sediada no Palácio Aloísio Filho, localizado na avenida Loureiro da Silva, desde 1986, quando foi inaugurado na data em que se celebrava o centenário do Dia do Trabalhador. Momentos tensos estão presentes no cotidiano democrático da Casa, mas um dos mais críticos, no entanto, é vivido atualmente, após os impactos das enchentes de maio deste ano nas estruturas do prédio e na rotina do Legislativo.

Na entrada pelo pórtico principal onde está escrito “Câmara Municipal”, os arbustos exibem o nível a que a água chegou na região em maio, com uma pequena parte verde restante entre o marrom da lama. “Nunca imaginei que a água entraria nas dependências da Câmara”, comenta o atual presidente, vereador Mauro Pinheiro (PP), que cumpre o seu quarto mandato. E entrou. O primeiro piso foi totalmente atingido pela força das chuvas e, para a recuperação, será necessária a realização de uma reforma geral, principalmente nas diversas salas do andar. Entre outros, os setores da taquigrafia e dos serviços de atividades complementares, que ali estão, se encontram com as mesas empilhadas, com o piso flutuante quebrado e com os móveis de madeira mofados. O cheiro, que já foi pior, como contam os funcionários, impregna o local.

Parte escura dos arbustos na entrada da Câmara de Porto Alegre mostra a altura a que a água chegou Parte escura dos arbustos na entrada da Câmara de Porto Alegre mostra a altura a que a água chegou | Foto: Ricardo Giusti

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Cláudia Helena da Cunha Inácio chefia a seção do memorial da Casa. No dia 5 de maio, em um domingo atípico de sol em meio ao caos que se instaurava em Porto Alegre, ela pegou uma bicicleta e foi, sozinha, tentar salvar o máximo possível do acervo instalado na sala, aproveitando que reside nas proximidades da Câmara. Lá estão gravações, documentos e arquivos que contam a história do Legislativo da Capital.

À luz de lanterna, no prédio que já não tinha energia elétrica, Cláudia passou o dia colocando os objetos em locais que a água possivelmente não atingiria. Muito foi salvo, mas conta que, como estava sozinha, não conseguiu resgatar as memórias mais pesadas, como os 3 mil DVDs encharcados de um conjunto com cerca de 15 mil, além de outros arquivos.

De um acervo de 15 mil DVDs com gravações históricas, 3 mil foram encharcados pelas enchentes de maio De um acervo de 15 mil DVDs com gravações históricas, 3 mil foram encharcados pelas enchentes de maio | Foto: Ricardo Giusti

Os livros, pastas e documentos, que foram molhados, estão em uma sala atrás do restaurante da Casa aguardando um destino breve para que possam ser salvos. Para isso, uma equipe de servidores administrativos do Legislativo trabalha diariamente no acervo.

Também funcionária do memorial, Maria Clara Bastos prevê que o trabalho de recuperação não será fácil. A ideia principal é contratar uma empresa para congelar os arquivos e evitar que os fungos se proliferem ainda mais, conta. Já foi aberta uma licitação, mas o processo engatinha. Outra ideia é usar radiação para recuperar parte do acervo, mas isso exigiria que o material fosse transportado para São Paulo, onde o trabalho é realizado por especialistas.

Congelamento ou radiação são medidas que podem ser tomadas para salvar arquivos históricos da Casa Congelamento ou radiação são medidas que podem ser tomadas para salvar arquivos históricos da Casa | Foto: Ricardo Giusti

Maior gasto deve ser com o restabelecimento da energia elétrica

Para o presidente do Legislativo, o mais afetado pelas inundações foi a subestação de energia que abastece o prédio. Ele fala que, com otimismo, será recuperado em 45 dias, ou seja, apenas na volta do recesso parlamentar.

Um dos engenheiros da Casa, Paulo Rogério Aumond estima, ainda sem uma avaliação oficial, que os gastos apenas com o transformador da subestação serão acima dos R$ 100 mil. No total, avalia que deve passar dos R$ 500 mil. O conserto do transformador será feito em Santa Catarina, em empresas especializadas na secagem do equipamento.

Conserto da subestação de energia elétrica do Palácio será o maior gasto, prevê o presidente Mauro Pinheiro Conserto da subestação de energia elétrica do Palácio será o maior gasto, prevê o presidente Mauro Pinheiro | Foto: Ricardo Giusti

Até lá, a atividade parlamentar segue híbrida, já que os gastos com o gerador contratado são altíssimos. Apenas às segundas e quartas-feiras, dias de sessão plenária, o trabalho dos vereadores é presencial, em horário limitado das 9h30 até às 19h. Nos demais dias, o gerador funciona das 10h às 17h, com expediente exclusivo interno.

No plenário, o clima difere do restante do prédio. Em ano de eleições municipais, que impactam diretamente os vereadores, desde a volta ao fluxo normal de sessões, as movimentações são intensas. Nem tão cheias como de costume, mas não vazias, as galerias presenciam os esforços dos parlamentares voltados para ações pós-enchentes, comumente interrompidos por discussões polêmicas de assuntos nacionais.

Link:https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/alagamento-da-c%C3%A2mara-de-porto-alegre-destruiu-arquivos-hist%C3%B3ricos-1.1503366